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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Irmã Rússia

"Le président français interpelle Poutine et Medvedev : «Vous ne pouvez pas faire cela, le monde ne l'acceptera pas.» Poutine réplique dans son langage ordurier habituel : «Saakachvili, je vais le faire pendre par les couilles.» «Le pendre ?» demande le président français, effaré. «Pourquoi pas ? répond le Premier ministre russe. Les Américains ont bien pendu Saddam Hussein.» «Oui, mais tu veux terminer comme Bush ?», rétorque Sarkozy. Poutine est interloqué. Comme Bush ? Il réfléchit puis lâche : «Ah, là, tu marques un point.» C'est gagné : Saakachvili sauve sa tête et ses... Cet échange fleuri, épisode crucial de la geste géorgienne de Sarkozy, nous a été relaté par Jean-David Levitte, le conseiller diplomatique à l'Elysée."
Publicado no Nouvelle Observatoire,
via esse blogue imprescendível

Não sei onde o li, mas li: a Rússia nunca deixou de ser governada por czares. País monstro, continente por si, não sendo Europa fala com ela todos os dias como as vizinhas que se encontram às janelas e trocam as vidas alheias enquanto colhem as roupas e cozinham. Apaixonei-me longo tempo atrás longamente pelo país, com Tolstoi a ensinar-me o abecedário dessa paixão. A língua, hei-de a saber um dia para ler suficiente (e depois é o japonês). Custa-me ver que a Rússia insiste no caminho errado: a admiração estrangeira que conquistou ficou em grande medida a dever-se - se excluírmos os comunistas ortodoxos e cegos mas contentes- ao milagre russo da segunda metade do século XIX, toda uma geração (ver The Russian Thinkers, de Isaiah Berlin, ou, para os poetas, The Coast of Utopia, do Stoppard) que marcou profundamente as artes e o pensamento. A Rússia conquistou aí suave o mundo, dialogou-se, pensou-se (e incubava uma coisa gigante, a rebentar dentro de momentos). É, creio, o seu falhanço em o fazer de novo, - em, de novo, pela cultura, ganhar respeito - que a leva a enveredar pela afirmação armada no quadro mundial. E o seu falhanço é também explicável: a Rússia é atravessada de uma tensão enorme, uma luta barulhenta entre a alma russa e a modernidade, representada tipicamente pela Europa (quem lê novelas longas do século dezanove russo sabe disto). A oposição convicta e convencida da Rússia ao nada sorrateiro movimento de europeização das ex-colónias é uma luta entre a Rússia tradicionalista e a europeia. Rasgada de grandes parcelas do seu velho território e poder depois do colapso da URSS, a Rússia que hoje resta viu-se como o último reduto (porque aquele fundamental, aquele que, quando cortada em bocados, não perdeu, e perservou, continuou, essencial) da "russidade". Os demais países do bloco de Leste, abertas as janelas, desabafam os quartos e olham da varanda o jardim vizinho. E a Rússia é uma mãe galinha que não aprendeu a lição do profeta Gibran de que os filhos não vos pertencem e são como setas que deixam o arco. A Rússia não o faz por mal e a Rússia não é uma coisa só, mas antes esse titã dorminhoco, que parece que tem de se mostrar grande rabujando indisposto (mas como dizia o Virgílio, revela maior poder criar uma flor que destruir um império).

O grande drama é que, na φύσις russa, parece estar inscrita uma tendência real para o centralismo de poder, uma inclinação anti-liberal que é sobretudo anti-liberdade. Putin senta-se na Rússia como um cadeirão e abafa-a debaixo do seu rabo (como dizia o montaigne, até o soberano maior se centra no seu trono com o cu - palavra de filósofo). Uma amiga russa agradecia a não-Deus (é ateia) o facto de o pai trabalhar para a secção desportiva de um jornal e não ser comentador político (tem demasiados exemplos para justificar o seu medo). Só há já uma rádio na Rússia onde os ouvintes podem ligar sem pré-censura. A Rússia nunca conheceu uma democracia, excepto talvez entre a Revolução de Fevereiro e a de Outubro (e, nesse entrementes, era tudo tão caótico que a proposição é discutível): foi rei com rei (e rainhas pelo meio, como a Catarina). A Rússia só formalmente é uma democracia, mas a China formalmente também é comunista e a Coreia do Norte uma república. Putin insere-se, literalmente, numa dinastia: depois da cortina de ferro, temos o pulso de ferro. Ignoro Medvedev, que é só um títere. Entretanto, na Rússia começa a discutir-se o alargamento do mandato presidencial de quatro para seis anos - e correm rumores de uma recandidatura do puto Putin. No dia em que nos habituramos a desclassificar a Rússia da liga das democracias a coisa não nos parecerá estranha. Há já um movimento pró-democracia (e joga xadrez), mas a coisa, num estado musculado semi-ditatorial, não é, claro, muito fácil de avançar. A UE, contudo, felizmente, soube-se hoje, está já a trabalhar num plano para, por volta de 2013, ter terminado a sua dependência energética da Rússia, acabando de vez com a pressão da Rússia nesse campo. No entanto, esta persiste na sua guerra geladinha, alinhando-se com caudillos como o Chávez contra os EUA pelo simples gozo de criar oposição. A Rússia podia ser parte do diálogo: prefere ser força de oposição, estando perigosamente a ressuscitar o pacto sino-soviético (que já impediu bloqueou várias tentativas de ajuda ao Darfur no Conselho de Segurança, visto que a China, como todos sabemos, não está interessada na resolução do conflito). Ao mesmo tempo, mete-se com o Irão, protegendo as suas pretensões. Conversa amiga com Berlusconi, que só pode ser comparado a Alberto João, na extensão da barriga e da fraude (e diz que o Obama é jovem, belo e bronzeado). A Rússia, neste momento (veja-se a birra com o escudo de mísseis americano), é mais um empecilho do que um catalisador da política mundial. Quer-se fazer notar por ser uma esfinge no caminho para tebas, impondo-se ao viajante: e ela mesma é o enigma que se coloca.