domingo, 9 de novembro de 2008

Prólogo

A conversar é que a gente se entende, mas no Parlamento, com essa regra, não chegam a lado nenhum, aparentemente (e já dizia o Anselmo que a Universidade é «o parlamento das razões»). Se «os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo», como axiomava o Wittgenstein, então também não temos outro entretenimento que falar, mau grado Babel: isso é o nosso mundo. «No princípio era o Verbo», já dizia o meu antepassado de nome. Vox populi: palavras leva-as o vento (e quem semeia ventos colhe tempestades, por vezes em copos de água). O homem que inventava provérbios disse um dia: que palavras sem acções são como tiros sem balas (mas nós também não queremos matar ninguém, para isso há o bowling e o elefante). [paramos para gole de café]. O mundo talvez acabe daqui a uns anos, mas entretanto vamos conversando como quem joga xadrez com a pérsia a arder (arde porquê? porque as conversas, quando deixam a infância do politicamente correcto e entram na adolescência das discussões a sério, ficam «ardentes» e «calorosas», dizem os escritores). Ao menos o lume dá para acender o cigarro, que dá sempre ar de intelectual o que neste género de blogues ajuda muito. Há pouco chovia lá fora (como o Gil a quem nevava por dentro). Tempestades aqui só Shakespeare (encomendado por Sandman) e brainstorming (há um pára-raios disso, a televisão, mas a gente dispensou-a). Ventos, alguns (de mudança?); ventas, certamente, curiosas e discursivas. Copos de água, shaken or stirred, indiferente: o blogue é que tem de ser diferente. Não se esqueçam da lição de Amélie: quem sabe bem os provérbios não pode ser má pessoa.
imagem: frontespício de The Song of Los, de Blake:
Urizen perante o mundo que criou; nós perante o blogue que começamos.

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